Mariana Godoy Entrevista

Sexta-feira, às 23h
Mariana Godoy Entrevista

"Sou contra a escola sem partidos", diz ministro da Educação Mendonça Filho


Publicada:27/08/2016 00:15:00

O Mariana Godoy Entrevista desta sexta-feira (26) recebeu o ministro da Educação Mendonça Filho e o ginasta medalhista olímpico na Rio 2016 Arthur Nory.

Mendonça Filho

O pernambucano José Mendonça Bezerra Filho nasceu em Recife, mas foi criado na cidade de Belo Jardim, ambas no estado de Pernambuco. Formado em administração de empresas, Mendonça Filho entrou para a vida pública aos 20 anos de idade. Em seu currículo há mandatos como deputado, exercício no cargo de secretário de Estado e, ainda, dois exercícios como vice-governador de Pernambuco durante as gestões de Jarbas Vasconcelos. 

O ministro da Educação começou o programa justificando a sua indicação para a pasta: "Primeiro, eu tenho uma vida pública longa. Fui deputado estadual e secretário de Estado muito jovem. Tive uma vida com grande experiência como vice-governador e governador do estado de Pernambuco. Em termos de gestão pública, a minha trajetória é vitoriosa".

Para participar do debate, o programa recebeu, também, dois alunos medalhistas na Olimpíada Internacional de Química: Victor Gomes Pires e Pedro Seber e Silva. "Nós somos do colégio Etapa, em São Paulo", disse um dos garotos, o que serviu de gancho para alertar que são alunos do ensino particular. O ensino público, que recebe críticas constantes pois estaria decaindo ano após ano, também foi objeto de apreciação de Priscila Cruz, presidente-executiva do movimento Todos Pela Educação.

Victor Gomes Pires e Pedro Seber e Silva

Diante da convidada, o ministro ressaltou a importância do professor no processo educativo no país: "Eu diria que é vital. Para ter uma educação de qualidade, você precisa valorizar professores e prepará-los para a tarefa nobre que é educar'. A gente tem a missão, dentro do MEC, de formar e preparar professores com estados e municípios".

Para Mendonça Filho, "a distância infelizmente hoje, ainda, entre a educação privada e a educação pública é muito significativa". Ele admitiu que houve uma universalização da educação, mas evitou dar o crédito às gestões Lula e Dilma e preferiu direcionar os "louros" dessa conquista ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Por outro lado, o pernambucano fez questão de criticar os governos do PT pela "falta de qualidade" do ensino. Segundo ele, o orçamento dstinado à pasta foi multiplicado por três nas gestões petistas, "mas o resultado não evoluiu na mesma proporção". Ele apontou alguns motivos que, sob o ponto de vista dele, justificariam essa afirmação.

O ministro admitiu que a educação no país está muito distante do que se pode considerar adequado: "É uma situação crítica e um desafio importante". Para ele, os países que alcançaram bons patamares de desenvolvimento o fizeram com o auxílio da educação.

Mendonça Filho não concordou com as acusações de que o governo Temer estaria cortando verbas da educação e rebateu: "Há uma imprecisão. Está errado dizer que o governo atual cortou recursos para a educação". Ele afirmou que havia uma decisão da presidente afastada Dilma Rousseff e de Aloizio Mercadante para cortar R$ 6.4 bilhões da pasta para contenção de gastos. Segundo o ministro, O presidente interino Michel Temer teria liberado, desse valor, cerca de R$ 4.7 bilhões o que, segundo Mendonça Filho, "possibiltou a retomada dos projetos". O ministro disse, ainda, que os programas oferecidos na gestão petista serão "reanalisados e redimensionados". Ele, no entanto, não admitiu que haverá encolhimento do Fies - e até garantiu que houve aumento do programa - e no ProUni.

Em sua primeira participação na dicussão de forma mais efetiva, Priscila Cruz citou três pontos que são, sob seu ponto de vista, fundamentais para a malhoria do ensino no país: A alfabetização, a reforma do ensino médio e a formação dos professores. Segundo ela, é "inadmissível que até os oito anos as crianças não estejam plenamente alfabetizadas". Sobre o ensino médio, ela garantiu que os resultados das crianças até o quinto ano têm melhorado e reforçou que é justamente na fase que precede o ensino superior que está o maior problema da educação no país. Sobre a formação de professores, Priscila observou que "metade dos professores do Brasil vão se aposentar nos próximos dez anos", o que deveria acender um sinal de alerta no ministério. Para que isso não se torne um grave problema em um curto espaço de tempo, ela foi enfática: "A gente precisa valorizar a carreira de docente, pagar melhor e colocar a educação no centro do desenvolvimento do país". Priscila Cruz apontou que os professores são, normalmente, os alunos que não estão entre os melhores durante a fase de formação: "Os bons alunos acabam não indo para essa carreira". 

Priscila Cruz

Ao ser questionado sobre como cumpriria os programas da educação sem vincular percentuais ao Produto Interno Bruto (PIB) e ao Pré-Sal, o ministro explicou: "A gente tem uma vinculação constitucional de 18% da arrecadação de tributos federais e o compromisso do governo Temer de investir mais que o vinculado". 

O ministro foi confrontado com a informação de que os valores repassados aos Institutos Federais retrocederiam aos praticados em 2012 e refutou essa afirmativa: "De forma nenhuma". "A dotação orçamentária para as Universidades Federais e Institutos Federais será mantida no custeio igual ao do ano de 2016. Estão confundindo dotação orçamentária com limite orçamentário", esbravejou Mendonça Filho.   

O pernambucano admitiu já ter sido chamado de "golpista" por pertencer a um governo interino considerado, por boa parte do país, ilegítimo. Ele, entretanto, diminuiu a importância das ofensas. "Há uma minoria verborrágica, às vezes até agressiva e alguns poucos agem com a construção de teses que são insustentáveis". 

Além de garantir que os aparelhos públicos federais não serão sucateados, o ministro falou sobre o Plano Nacional de Educação (PNE) e foi enfático sobre as metas: "O grande desafio é melhorar a qualidade, o desempenho da alfabetização do Brasil que, infelizmente, é muito baixa". Mendonça Filho reforçou a necessidade de um trabalho conjunto com municípios e estados antes de ressaltar que a "missão de alfabetizaar não é da União". 

Priscila Cruz aproveitou a oportunidade para cobrar a participação da sociedade no processo educativo, mesmo que de forma simples: "É fácil falar que a educação é importante, mas a gente só consegue avaliar pelas ações, pelas atitudes", disse ela antes de prosseguir: "Eu vou citar uma atitude que é muito comum, mas por desconhecimento". Priscila citou, então, o hábito de alguns pais de falarem mal dos professores dos filhos dentro de casa e ressaltou que "infelizmente isso ainda é muito comum…" "...Quando a gente fala mal do professor do filho dentro de casa, a gente está cortando o vínculo e aí, no outro dia, ele vai aprender menos". Priscila recomendou, ainda, ao ministro, um "tripé" para valorizar a formação do professor e, consequentemente, a atratividade da profissão: investimento na carreira, investimento em formação inicial e investimento em formação continuada. 

Para ratificar a informação de que os bons alunos não se sentem atraídos pela docência, os ganhadores de medalhas nas Olimpíadas Internacionais de Química disseram não ter o desejo de serem professores e foram além, disseram que não conhecem, entre os amigos, quem queira ser. 

Sobre a necessidade de quadro técnico á frente do MEC, o ministro defendeu-se: "Ele está sendo tocado tecnicamente, eu tenho uma história de gestão pública, incluindo na área da educação…" "…O time que toca o MEC hoje é qualificado, preparado".

Mendonça Filho também comentou a suspensão do programa Ciência Sem Fronteiras e explicou o que o governo pretende mudar no envio de estudantes ao exterior. Ele disse que o governo seguirá investindo nos programas de pós-graduação, mas criticou os projetos que mandavam estudantes de graduação para fora do país e enfatizou: "O programa não teve supervisão, acompanhamento". 

O político reforçou que a prioridade do governo é aprovar a reforma do ensino médio, ensino que ele classificou como "amplo no sentido de conteúdo" e "que tem uma distância grande da educação técnica". O ministro apontou ainda para a importância de uma base curricular nacional.

Sobre o "Escola Sem Partidos", o ministro opinou: "Sou contra a escola sem partido. Não dá pra estabelecer um tribunal de ideias dentro das escolas".

Além do ministro da educação, o programa Mariana Godoy Entrevista recebeu, também, o ginasta medalhista de bronze na Rio 2016 na prova do solo Arthur Nory.

Arthur Nory

O atleta disse estar muito feliz com o resultado nos Jogos Olímpicos Rio 2016 e contou: "Era um sonho que eu tinha desde pequeno". Nory falou sobre a emoção de pisar a Vila Olímpica pela primeira vez: "Era tudo o que eu sempre sonhei". O ginasta reconheceu que o mais difícil havia sido chegar até ali. 

Arthur Nory afirmou que nas competições de ginástica "é o psicológico que pesa mais", pois todos estão treinados em bem com seus corpos. Ele não concordou com uma ideia corrente que afirma que os brasileiros têm o lado psicológico mais frágil do que outros atletas, sobretudo de países como Alemanha e Japão, por exemplo: "É tudo trabalhado. A gente trabalha muito a cabeça, tem uma equipe multidisciplinar que ajuda a blindar". O ginasta contou que cada atleta tem seu jeito de se concentrar para as provas e contou como lida com a pressão: "Na hora em que estou no aparelho não tem plateia, não tem juiz". 

Nory comentou o momento que está vivendo e o classificou como uma "ressaca pós-olimpíada". Ele, entretanto, disse já ter sentido o reconhecimento do público nas ruas. Questionado se já se cansou de exibir a  medalha olímpica, o atleta foi direto: "Cansado? Não estou não!"

O ginasta disse que todos já tinham ideia de como seria competir no Brasil: "A gente já sabia como ia ser grande de torcida em casa. Para mim é muito bom ter a torcida a favor", reconheceu. Ele, entretanto, admitiu que não conseguir assistir a outros esportes, exceto pela televisão. 

Engana-se quem acha que o menino está focado nas férias. Além de pensar no Campeonato Brasileiro da modalidade, que ocorre no final do ano, ele já tem uma nova meta: "No dia seguinte já estava pensando em Tóquio. Até dormi com a medalha. Em Tóquio eu quero outra e de outra cor", confessou.

Arthur Nory se mostrou surpreso com a fama repentina e foi humilde: "Não tô sabendo lidar ainda não". É nítido que se trata de um belo rapaz e, assediado constantemente por meninos e meninas, ele foi questionado se tem interesse em seguir alguma carreira na TV. Nory reforçou seu foco esportivo e descartou qualquer participação em programas de TV. Ele ainda avisou: "Eu quero mais duas olimpíadas, 2020 e 2024".

O atleta elogiou a iniciativa do Bolsa Pódio e o apoio das Forças Armadas, que têm investido em atletas de alto rendimento do país. Nory é terceiro-sargento da Aeronáutica e, por isso, prestou continência quando estava no pódio da Rio 2016. Ele disse que espera que o projeto seja mantido: "Espero que continue, agora que eu fui medalhista".

O ginasta contou o que foi fundamental para conquistar a medalha de bronze nos Jogos: "Foi a decisão de mudar minha série". Nory contou que pediu ao seu técnico essa alteração, para que arriscassem com uma série mais difícil. "isso foi o diferencial", disse antes de concluir: "Eu fui seguro de que ia fazer uma boa prova". Nory ainda elogiou seu técnico, Cristiano Albino: "Eu aprendi toda a ginástica com ele, eu cresci com ele".

Sobre estar preparado para as cobranças que virão com a conquista, ele se disse preparado: "Todo mundo vem cobrar, é uma coisa que a gente filtra. Só de estar em uma olimpíada já é muito difícil para o atleta". Ele ainda analteceu o feito de Arthur Zanetti, que ganhou a prata nas argolas e não perdeu o ouro, como parta da imprensa veiculou: "A gente sabia que se o grego acertasse a série era dele o ouro". 

Arthur Nory se mostrou feliz por fazer parte da história da ginástica brasileira e contou os bastidores da espera pela competição, ao lado do companheiro de quarto na Vila Olímpica e rival de prova Diego Hypólito. 

Sobre a vida sentimental, para alegria de admiradoras e admiradores, ele se mostrou tranquilo: "Eu estou namorando a minha medalha". Nory ainda elogiou o carinho das pessoas: "O carinho do fã é muito bom. Eu sou muito grato por todo mundo que torce, que apóia".

Em um momento de descontração, o menino revelou um segredo de bastidores: ele tem uma cueca da sorte e estava com ela na final olímpica! É do Mickey Mouse, em virtude de um sonho ainda não realizado: conhecer a Disney World, nos Estados Unidos. 

Para finalizar, Arthur Nory aconselhou os novatos e disse que é preciso "amar o esporte, acreditar e sonhar" e confessou: "Eu sou sonhador, eu sempre sonho com tudo". O ginasta contou que tinha em seu armário as fotos de três ídolos do esporte: os ginastas Kohei Uchimura, do Japão, Fabian Hambüchen, da Alemanha, e Danell Leyva, dos EUA. No fim das contas, lá estava o menino brasileiro, dividindo os aparelhos com seus ídolos. Sonhar e treinar muito deu certo.

Notícias Relacionadas

Comentários