Médico aciona a polícia após ter a imagem clonada por IA em golpes de saúde contra idosos
Redação RedeTV!Perfis falsos somam milhões de acessos, sugerindo a interrupção de tratamentos tradicionais

(Foto:Reprodução/Redes Sociais)
O médico otorrinolaringologista Hélio Brasileiro registrou um boletim de ocorrência na Polícia Civil do Estado de São Paulo após descobrir que sua imagem e identidade foram clonadas por ferramentas de inteligência artificial. As informações são da BBC News Brasil.
Ao menos cinco canais na plataforma YouTube utilizaram a figura do profissional, sem autorização prévia, para propagar conteúdos alarmistas sobre saúde focados no público idoso.
O especialista localizou as fraudes digitais por meio de uma reportagem veiculada pela BBC News Brasil. Segundo as investigações conduzidas pelo 3º Distrito Policial de Sorocaba, o esquema é apurado sob as tipificações de falsidade ideológica, falsa identidade, falso alarme e tentativa de difamação.
A delegada responsável pelo caso, Alessandra Silveira, afirmou em despacho que "o esquema fraudulento ganhou repercussão internacional", gerando danos à reputação de Brasileiro e "risco de envenenamento ou automedicação à população". Ela completou ressaltando que "a gravidade da difusão de desinformação médica por meio de simulação biométrica exige a imediata atuação da Polícia Judiciária".
A Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo informou que realiza diligências para identificar e responsabilizar os autores. O médico também atua na plataforma de vídeos com um canal de 270 mil inscritos, reativado durante a pandemia para combater conteúdos falsos.
O profissional lamentou o episódio e relembrou a finalidade de sua página oficial na internet. "Veja que ironia do destino: eu reativei o canal com um slogan: informação médica sem fake", declarou Brasileiro.
O otorrinolaringologista relatou ter denunciado os links suspeitos, mas descobriu que a rede de vídeos falsos era mais ampla. "Denunciei vários vídeos de um canal só. Depois vi, em uma conversa com você [repórter da BBC News Brasil], que tem inúmeros outros", afirmou.
O prejuízo potencial aos espectadores idosos fundamentou a reação jurídica do médico. "É assustador. A gente observa que a maioria dos vídeos é voltada para o pessoal da terceira idade, e a maioria traz desinformação. É preocupante — foi por isso que tomei todas as atitudes jurídicas possíveis", sublinhou.
Brasileiro simulou o impacto prático dos tratamentos caseiros sugeridos pelos perfis falsos na saúde dos pacientes crônicos. "Imagine que você seja hipertenso e faça uso, há muito tempo, de um medicamento. Aparece um vídeo com a minha imagem dizendo: 'se você, idoso, é hipertenso e toma tal remédio, não sabe o mal que está fazendo aos seus rins — é muito mais saudável tomar o suco de maracujá'", exemplificou.
O médico alertou para o perigo das interações registradas nas seções de comentários dessas páginas clonadas. "E depois você vê comentários de pessoas idosas dizendo: 'Meu Deus, eu tomo esse remédio há muito tempo, por que o doutor não me informou? Vou deixar de tomar o remédio e começar a tomar o suco de maracujá'", relatou.
O profissional reforçou que seu objetivo central é a derrubada das páginas e a conscientização pública contra fraudes. "Não sou investigador de polícia, não tenho a menor intenção de punir — isso é para o Poder Judiciário, para a polícia. Minha função, enquanto médico, é informar e deixar claro que essas desinformações são perigosas. Que esses canais caiam e não surjam novos, para não prejudicar a saúde da população", pontuou.
Brasileiro concluiu com uma crítica direcionada aos criadores dos canais automatizados por inteligência artificial. "Quem cria isso não tem empatia. Quem busca ganhar dinheiro dessa forma pode estar causando danos fatais a idosos e a outras pessoas que sigam essas informações. E poderia ser o pai, a mãe ou até o filho de quem criou o canal", desabafou.
O mapeamento realizado pela organização sem fins lucrativos CTRL+Z apontou que canais de saúde que usam inteligência artificial acumulam mais de 70 milhões de visualizações. O Google removeu parte das páginas após a primeira denúncia da reportagem, mas as contas clonadas do médico paulista continuaram no ar.
O YouTube orientou o profissional a cadastrar sua imagem biométrica no sistema para acelerar futuras remoções. Em nota, a empresa comunicou que conteúdos gerados por inteligência artificial precisam seguir as diretrizes da comunidade.
A plataforma detalhou as restrições vigentes em sua política de moderação de conteúdo. "Isso abrange nossas políticas sobre desinformação médica, que proíbem informações incorretas a respeito de prevenção e tratamentos capazes de causar, comprovadamente, danos graves no mundo real", manifestou a companhia.
A empresa informou também o uso de avisos visuais para sinalizar produções sintéticas aos usuários. "Ao identificarmos material violativo no YouTube, aplicamos as medidas cabíveis em conformidade com nossos Termos de Serviço, as regras do Programa de Parcerias do YouTube e nossas Diretrizes da Comunidade", concluiu a nota, sem responder diretamente sobre o caso específico de Brasileiro.
O vice-presidente do Conselho Federal de Medicina, Jeancarlo Cavalcante, alertou sobre os riscos da generalização de terapias na internet. "A saúde das pessoas é algo individualizado. Uma medicação ou orientação pode ser benéfica a uma pessoa e maléfica a outra, a depender das comorbidades, da interação com outros medicamentos. Vemos isso como um grande risco", analisou.
O professor da FGV Direito Rio Thiago Bottino explicou que a tipificação criminal ocorre na simulação do ato médico. "O problema é quando alguém que não é médico, seja pessoa real ou inteligência artificial, atua como médico, prescrevendo medicação, dizendo qual seria o tratamento adequado. É um caso de exercício irregular da medicina, que é crime previsto no Código Penal", esclareceu.
O coordenador adjunto do AI Hub, Filipe Medon, avaliou que o limite da legalidade reside no engano ao consumidor. Ele sinalizou que as plataformas digitais podem responder civilmente se não retirarem o material fraudulento após a notificação oficial ou em cenários de anúncios impulsionados.
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