08/07/2026 09:36:00 - Atualizado em 08/07/2026 09:36:00

Governo eleva mistura de etanol e acende alerta na indústria automotiva

Redação RedeTV!

Engenheiros apontam riscos de corrosão e aumento no consumo de modelos flex e a gasolina

(Foto: Marcello Casal Jr./Agência Brasil)

O Conselho Nacional de Política Energética reúne-se nesta quarta-feira (8) para anunciar o aumento da mistura de etanol anidro na gasolina de 30% para 32%. A medida tem como objetivo reduzir os impactos da variação do preço internacional do petróleo.

O órgão federal debate a decisão há alguns meses. Especialistas avaliam que a mudança eleva o risco de desgaste em motores mais antigos ou sem calibração específica.

A Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores defendeu a realização de mais estudos antes da implementação da medida. Engenheiros apontam desafios na compatibilidade de materiais em carros importados ou antigos projetados para teores menores do biocombustível.

O etanol anidro passa por desidratação na usina, mas retém a capacidade de absorver água do ambiente. Essa umidade pode alcançar o interior do motor e afetar componentes metálicos.

A combinação de água e etanol eleva a condutividade elétrica. O fenômeno favorece a corrosão eletroquímica no sistema de alimentação do automóvel.

A nova concentração exige resistência de componentes como tanque, boia, bomba e bicos injetores. Mudanças demandam testes detalhados para confirmar a durabilidade das peças.

"As avarias principais que podem ocorrer seriam de corrosão ou desgaste nos componentes do sistema de injeção, pois podem provocar falhas de funcionamento, aumento das emissões e consumo e até dano total, principalmente na bomba e injetores", explica Rogério Gonçalves, engenheiro e diretor de combustíveis da Associação Brasileira de Engenharia Automotiva.

O especialista ressalta que automóveis antigos tendem a sofrer mais por não terem sido projetados para o percentual elevado. Gonçalves afirma que o consumo deve subir em modelos flex e movidos apenas a gasolina devido ao menor poder calorífico do etanol.

A variação do rendimento pode ser imperceptível no uso cotidiano. Os testes oficiais ocorrem em laboratório com ambiente controlado.

No mercado de manutenção, profissionais apontam que borrachas e mangueiras podem ressecar e vazar. Bombas de combustível e bicos injetores também correm risco de oxidação ou travamento.

"Além disso, a bomba de combustível e os bicos injetores podem oxidar ou travar, porque o álcool facilita a corrosão dessas partes metálicas e plásticas", explica Fábio Rhoden, sócio proprietário da oficina Flacht Motorsport & Classic Center.

O motorista pode notar o efeito pela manhã, quando o motor passa a demorar mais tempo para dar a partida. O risco se concentra em veículos fabricados há 20 ou 30 anos com carburador ou injeção eletrônica simples.

Modelos antigos não possuem a Unidade de Controle Eletrônico moderna para ajustar a mistura de forma automática. Carros importados recentes sem tecnologia flex chegam ao limite de compensação do sistema e elevam o consumo.

"Os carros antigos (carburados ou com injeções simples) não conseguem se ajustar sozinhos para queimar tanto etanol", avisa Rhoden.

Proprietários podem perceber oscilação da marcha lenta, perda de potência e engasgos em acelerações. O teor elevado de etanol também pode acelerar o entupimento do filtro de combustível ao desprender sujeira do tanque.

A alteração pode antecipar a troca das velas de ignição pelo maior calor gerado na combustão. O desgaste ocorre quando o sistema opera fora das condições originais de desenvolvimento de fábrica.

A Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores declarou-se favorável aos biocombustíveis e ao papel do etanol na descarbonização. A preocupação da indústria automobilística restringe-se à necessidade de um cronograma rigoroso de testes.

"Nós temos discutido, na verdade, é que o aumento da mistura deve ser precedido de testes. Esse é o único ponto da Anfavea", explica Igor Calvet, presidente da entidade.

O executivo afirma que as normas técnicas exigem ensaios de engenharia para garantir a resistência à abrasividade. A manifestação foi feita em conjunto com o Sindicato Nacional da Indústria de Componentes para Veículos Automotores.

A entidade considera os testes adicionais uma segurança para o consumidor brasileiro. "A gente só queria ter a tranquilidade de que não haverá nenhum problema", diz Calvet.

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