Amor raiz vs amor Nutella: como as gerações lidam com o romance?
Caio Fonseca e Nathalia Ferreira / Redação RedeTV!Especialista analisa como a dinâmica dos casais mudou, abrindo espaço para os relacionamentos modernos

(Foto: Pexels)
Cada vez mais, questionamentos como “quem deve pagar a conta do date?” têm dominado as redes sociais com os mais diversos argumentos, o que reacende o debate sobre como a forma de se relacionar tem mudado com o passar do tempo. Tanto homens quanto mulheres estão repensando seus papéis como parceiros, e não apenas no quesito financeiro. A busca pela terapia de casal, por exemplo, tem crescido desde a pandemia de Covid-19.
Discussões como essa evidenciam uma mudança mais profunda nos relacionamentos: os papéis de gênero, antes tão definidos, agora estão sendo colocados em xeque.
Diante desse cenário, o portal da RedeTV! decidiu ouvir diferentes pontos de vista, entre aqueles que ainda seguem valores tradicionais e os que adotam visões mais modernas, para entender como essa mudança acontece nas duas pontas.
Amor raiz vs amor Nutella
Durante muitos anos, o homem foi visto como provedor. Era comum que ele arcasse com as despesas dos passeios ou até mesmo com gastos do dia a dia da parceira. Andréia Lacoste, de 50 anos, dona de uma agência de turismo, cresceu e vive sob essa lógica. E afirma que não pretende mudar: “Não vou voltar atrás porque não tenho mais tempo para isso”.
“Comecei a trabalhar com 15 anos e, aos 18, já namorava. Desde então, nunca comprei anticoncepcionais para mim. A mulher é sempre a que tem mais problemas e gastos, então o mínimo que eles podem fazer é pagar os nossos passeios”, disse Lacoste.
Ela contou que teve dois casamentos longos, um de 21 anos e outro de 13. Em ambos, os maridos eram provedores, e seu salário era usado para comprar roupas e “mimos para as crianças”. Reforçou que nunca se sentiu “inibida ou acanhada” e que, por ter uma dupla jornada, com trabalho, casa e filhos, achava justa a dinâmica que vivia.
Hoje, mesmo solteira, ela mantém suas exigências: quer alguém com condições financeiras e que assuma responsabilidades. “Não quero ninguém que tenha menos que eu, não por interesse, mas porque já passei da fase de construir algo. Já estou na fase de trabalhar e curtir… Lógico, não sou radical; se precisar de um apoio para alguma coisa, sou pau para toda obra”, reforçou.
Na contramão, a analista de Trade Marketing Valentina Domecini, de 27 anos, acredita que o modelo do homem provedor está ultrapassado. “Hoje em dia, em muitas casas, a principal renda vem da mulher. Acredito que essa visão mais tradicional já tenha ficado no passado, embora ainda existam pessoas que sigam esse modelo, e tudo bem também”.
Valentina lembra que já deixou de sair com alguém por não ter dinheiro e se sentir desconfortável com a ideia de que a outra pessoa pagaria tudo. “Isso me incomodava e dava um certo pavor”.
Para ela, a divisão das despesas é natural e até preferível. “Não gosto da ideia de que seja obrigação do meu namorado arcar com tudo. Dividindo, além de ser mais justo, fica mais leve para os dois”.
A experiência de Valentina revela uma mudança no modo como muitas mulheres têm encarado os relacionamentos, com mais igualdade e autonomia financeira. No entanto, o debate está longe de um consenso.
Alyssa Bernardes, de 22 anos, por exemplo, acredita que pagar o date ainda é um gesto fundamental: “É algo indiscutível e importante”. A analista de marketing acredita que o ideal é dividir os custos conforme os ganhos de cada um. “Não sei se me sentiria confortável bancando muito mais do que um homem. Os dois podem dividir os custos, mas acho que, numa viagem, querer agradar a mulher é crucial. E não é algo que não é recíproco, não, tá? Eu mesma adoro presentear as pessoas que amo, mas sou bem tradicional no quesito intenções e diferença de papéis”.
Esse comentário reflete um pensamento ainda muito presente, embora cada vez mais debatido em tempos de relações mais equilibradas. A verdade é que nem sempre os dois estão na mesma página, e é aí que surgem os conflitos.
Divergências entre os casais
Para além das preferências pessoais, essas diferenças de expectativa podem gerar frustrações e até afastamento emocional.
Para aprofundar o tema, ouvimos a psicóloga Marcela Estrela, especialista em terapia cognitivo-comportamental (TCC) e terapia do esquema para casais. Segundo ela, é crescente o número de casais que discutem abertamente suas divergências e o papel da mulher, que tem ganhado mais espaço nas decisões domésticas e financeiras.
“Hoje a gente tenta justamente romper esses padrões e lembrar que não existe uma norma, né? Não existe um certo e um errado. Existe aquilo que funciona para cada casal. Então, tem casal que vai dividir as contas por igual, porque isso funciona para eles. Tem casal em que o homem será o provedor, e a mulher talvez fará as funções domésticas. Se isso funciona para eles e não traz sofrimento para nenhuma das partes, está ok”, explicou.
Para Alyssa, a ideia do homem provedor tem mais relação com a intenção de cuidar. Mas ela reforça que isso não exclui a importância da carreira feminina: “A mulher não deve deixar de olhar para a própria carreira. Trabalhar é importante para ter propósito de vida e o próprio dinheiro”.
“Quando penso em ter filhos, quero um homem que possa sustentar a casa, de forma que eu possa me sentir confortável para criar meus filhos e voltar a trabalhar quando nós dois decidirmos juntos que é o melhor. É um dos motivos que me fazem enxergar que essa intenção de prover, do lado do homem, é tão importante”, completa.
Brunna Santos, de 30 anos, é analista de contas e já passou por diferentes fases em seus relacionamentos. No início, era contra que homens pagassem tudo. Com o tempo, ficou mais flexível: “O namoro é feito para acabar: ou acaba em casamento, ou acaba o namoro. Então, se eu estiver em um relacionamento em que as coisas não estejam bem alinhadas, tanto para mim quanto para a pessoa, é melhor terminar”.
“No contexto de pagar as coisas, se é um cara com quem eu tô ficando, antigamente eu não gostava que pagassem. Mas hoje, se a pessoa se oferece para pagar no primeiro encontro, é um sinal positivo sobre ele e sobre o quanto está disposto. Já numa relação sólida, não vejo problema em dividir os gastos se houver alinhamento”, afirmou Santos
A psicóloga reforçou que, no consultório, tem observado as mulheres cada vez mais engajadas em expressar suas necessidades. “Elas se sentem menos atendidas em alguns momentos, então percebem muito mais aquilo que falta dentro das relações. Elas pedem mais, se posicionam, dizem o que não está bom, e isso reflete diretamente na relação”.
Segundo ela, a procura por terapia de casal tem crescido principalmente entre casais jovens e recém-casados. “Sinto que esses casais têm urgência em resolver as coisas. Não querem postergar ou empurrar com a barriga”, avaliou.
A empresária Natalia dos Santos, de 30 anos, chegou a influenciar a ex-esposa a iniciar a terapia de casal, mas admite que a parceira não estava preparada: “Ela não se sentia confortável nem para entender o movimento da terapia”.
“Eu acho que ajudou a gente no processo. No tempo em que fizemos, nos propusemos a algumas coisas, nos ajudamos em outras. Mas acho que tem que haver esforço de ambos os lados para olhar a situação com respeito, carinho e cuidado, sem julgar e sem apontar o dedo. É mais um trabalho em equipe, sabe? Continuamos juntas por alguns anos depois da terapia. Mas acho que ela não se entregou tanto ao processo. E é isso: só conseguimos seguir na terapia, seja individual ou em casal, quando a outra pessoa também quer”, afirmou.
Dicas da especialista para fortalecer o relacionamento:
- Invista em conteúdos que estimulem a conexão
Ela sugeriu o consumo de conteúdos como livros e jogos de perguntas para casais.
- Mostre vulnerabilidade no relacionamento
“Não tenham medo de se mostrar dentro das relações”
- Fortaleça a comunicação
“E insistam bastante na comunicação para que vocês possam chegar a um alinhamento maior”.
Pressão das redes sociais
Mas além das trocas dentro da relação, é impossível ignorar o impacto externo e, nesse cenário, as redes sociais desempenham um papel central.
É nesse ponto que entra um dos principais catalisadores de conflitos e comparações: a internet.
A produtora de conteúdo Giulia Lang, de 21 anos, comentou sobre a pressão da web nos relacionamentos mais jovens: “Pensa numa garota de 19 anos passando pela For You do TikTok e vendo uma mulher de 26, casada com um cara de 30 que banca viagens, dá presentes luxuosos… Aí ela olha pro namorado dela, um estagiário que ganha um salário mínimo, e começa a achar que ele não a ama o suficiente porque não pode fazer o mesmo. Isso gera uma frustração imediata. Ela termina com ele achando que merece mais, quando na verdade a situação é completamente diferente”.
Segundo ela, essa comparação chega a ser “injusta”, porque o ideal seria “construir as coisas juntas”.
A psicóloga Marcela complementa: “É a ideia de se basear naquele recorte que a gente vê nas redes sociais, querer encontrar algo assim e não olhar para aquilo que é realmente concreto, possível e real, e não tão ideal. Casais brigam, têm divergências e vivem fases difíceis”.
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