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entrevista com o autor

Editora lança biografia que Caetano Veloso vetou


Publicada:10/05/2017 16:20:00
Gustavo Gobbi, Redação/RedeTV!

Sabe-se que o processo de escrita de um livro, qualquer que seja o livro, nunca é simples. Passada a fase inicial, abre-se um universo de possibilidades com revisões, novas pesquisas e até mesmo opiniões de outros avaliadores. Dito isso, até mesmo o lento processo da escrita parece curioso se aplicado a "Caetano - Uma Biografia: A Vida de Caetano Veloso, o Mais Doce Bárbaro dos Trópicos", de autoria de Carlos Eduardo Drummond e Marcio Nolasco, lançado no início de maio pelo selo Seoman.

O livro não se provou uma 'luta' apenas para ser escrito - foram anos de pesquisas reunindo periódicos, livros, ensaios e entrevistas com mais de 100 pessoas -, mas também para ser lançado. Caetano barrou sua publicação e a obra só chegou ao mercado após a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), quem em 2015 liberou o lançamento de biografias sem a necessidade de autorização dos biografados.

Para entender melhor o processo de pesquisa e produção de um material tão extenso a respeito de um dos artistas brasileiros mais importantes da história, o RedeTV Geek conversou com Carlos Eduardo Drummond, que falou sobre método, como o livro mudou aos longo dos anos e o impacto de Caetano na vida de dois homens que passaram tantos anos debruçados sobre a história do artista.

"Caetano" surgiu em 1997, do desejo dos autores em fazer "uma biografia de um grande músico da MPB que ainda não tivesse sido explorado". "Conhecíamos o Caetano, mas não profundamente. Tínhamos uma admiração, mas não éramos tietes", explica Drummond. A dupla optou por uma metodologia semelhante à usada por Ruy Castro e Fernando Morais em trabalhos como  "Garrincha - A Estrela Solitária" e "Chatô - O Rei do Brasil".

"Foram seis anos de pesquisa de campo, coleta de periódicos e levantamento de bibliografias. A partir daí, iniciamos a fase das entrevistas - ao todo, 103 entrevistados -, toda baseada no alicerce desse estudo feito anteriormente." Uma palestra de Castro, no ano em que deram início ao trabalho, ajudou a clarear a metodologia a ser seguida: "Todo mundo sabe que o Caetano é um artista multifacetado, é um cara que atira para todo o lado. Com isso, se nós fôssemos conversar com todas as pessoas que conviveram com ele, que foram testemunhas, esse livro ia demorar 50 anos para ficar pronto. Elencamos cada fase de sua vida e colocamos peso igual em todas as fases, aí começamos a identificar essas pessoas."

Geraldo Vandré, notório recluso, por exemplo, custou a ser encontrado. Ele e Caetano possuem uma história conturbada: de acordo com relato do segundo no livro "Verdade Tropical", Vandré teria brigado com o baiano e com Gal Costa por conta da música "Baby". Vandré, em entrevista de 2000, ainda com o espírito polêmico intacto, disse que continua achando a música "uma mer**". Drummond descobriu um restaurante em São Paulo onde a presença de Vandré constante. Fez amizade com o garçom do local e foi atendido pelo cantor de "Para Dizer Que Não Falei das Flores" após duas outras tentativas frustadas de trazê-lo ao telefone. "Foi um diálogo um pouco surreal, ele me passou o celular de uma secretária e ainda se passou mais um ano e meio desde aquele contato para a gente fazer a entrevista. Em termos de conteúdo, ela [a entrevista] foi uma 'porcaria', mas valeu a pena por ter um diálogo com ele."

Houveram encontros memoráveis também com Jorge Mautner, que resultou em um incidente com um gato particularmente 'genioso' do músico, Maria Bethânia e Jards Macalé. 

É dessa diferença de vozes que surge a personalidade de Caetano e aponta um caminho para sua vida. "No início, não conhecíamos ele profundamente. Uns poucos anos antes de iniciar a pesquisa, aos 21 anos, me assustei ao descobrir que Bethânia era irmã de Caetano. Depois de mergulhar na história dele, passei a admirá-lo principalmente por um Caetano que se desdobra em mais de uma pessoa. Ele é um artista que não tem preconceitos com relação à arte. Ele tem uma interlocução constante, com isso ele se enriqueze constantemente. Nesse sentido, ele leva vantagem com relação a outros artistas; um cara que fica focado em um único ritmo e não se mantém aberto a novas experiências, ele vai perder a oportunidade de se enriquecer culturalmente. Nesse sentido o Caetano nunca parou, ele tá sempre se reinventando. Ele é realmente a síntese da antroprofagia", explica Drummond.

No livro "Verdade Tropical", lançado por Caetano e que funciona como uma tentativa de explicar o movimento da Tropicália, que mexeu com o ambiente cultural do Brasil entre 1967 e 1968, anos em que obteve enorme força. O coletivo de artistas, entre eles Caetano, Gil, Mutantes, o maestro Rogério Duprat, buscou inserir elementos da música mundial na linguagem da MPB, numa tentativa de 'universalizá-la'.

O processo de pesquisa extenso permitiu, como já falamos, uma reavaliação da obra do artista sob os olhos de seus biógrafos, mas o que da carreira plural de Caetano surpreendeu Drummond? "O Caetano como artista plástico é extremamente interessante. Me surpreenderam suas habilidades. O livro apresenta um autorretrato feito por ele entre 1960/1961 que é muito bonito. No final, temos uma outra pintura excelente dele. Acho que Caetano poderia seguir muito bem o campo das artes plásticas. E também poderia ser um cara ligada ao cinema, um cineasta, como se provou com produções como 'O Cinema Falado'". A produção de 1986, única vez que Caetano dirigiu um filme, mescla experimentalismo e documentário com uma narrativa focada na palavra: prosa, poesia, filosofia e outras maneiras diversas da escrita.

No campo musical, Drummond elenca a fase com a A Outra Banda da Terra, que rendeu discos como "Bicho" e "Cinema Tropical", como a que mais lhe agrada. "Eles [a banda] incentivavam Caetano musicalmente. Ele sempre gostou muito musicalmente de Gil, Jorge Ben, e a A Outra Banda da Terra deixava ele muito à vontade. É uma produção muito intensa, variada, ensolarada, e curiosamente a partir desse período ele começou a vender mais discos."

Segundo consta, Caetano vetou o livro pois julgou texto de baixo valor literário. Chegou a convocar a ajuda do poeta Eucanaã Ferraz para auxiliar na produção, mas o escritor preferiu não se intrometer. Decidiu-se, então, pelo veto.

Passado tanto tempo de pesquisa e de trabalho, o trabalho não ia ser publicado se, em 2015, o STF não tivesse resolvido julgar a legalidade de biografias não autorizadas. A decisão pela autorização das publicações agradou Drummond: "Estávamos acompanhando o debate, especialmente para ouvir todos os lados. É importante pois, quando aconteceu a situação em 2004 [o veto de Caetano], não havia nenhum debate sobre o direito a liberdade de expressão e o direito de intimidade e privacidade. Isso me permitiu formar uma opinião sobre o assunto, ouvi todos os lados e nutria uma esperança de que houvesse uma mudança de lei no país. Não podia ser diferente. Se continuássemos do jeito que estávamos, a memória do país ia ficar nas gavetas, o livro jamais sairia sem isso."

Concluída uma empreitada que durou 20 anos, Drummond diz que tem "algumas coisas na cabeça", mas que ainda não fez planos mais específicos para o futuro. "Tenho muita resistência a me lançar a um projeto semelhante a esse, uma biografia de pessoa viva, por exemplo. Você percebe que passamos 20 anos nela. Se eu precisar desse tempo todo para escrever um livro, é algo que se torna inviável.  Tenho uma ideia específica de um livro, que eu nem sei se vou fazer com o Marcio, mas também devo seguir com projetos."

SERVIÇO

"Caetano - Uma Biografia: A Vida de Caetano Veloso, o Mais Doce Bárbaro dos Trópicos"

Autores: Carlos Eduardo Drummond e Marcio Nolasco

Editora: Selo Seoman, Grupo Editorial Pensamento

Preço sugerido: R$ 59,90

544 páginas

Os autores estão fazendo uma turnê promocional para divulgar o trabalho, e neste sábado (13) desembarcam em São Paulo para uma sessão de autógrafos. Confira as informações:

Book Tour Caetano: uma biografia

16h - *Pocket show da cantora Gil, em Tributo a Caetano (entrada franca)

17h – Sessão de autógrafos 

Livraria Cultura – Conjunto Nacional
Av. Paulista, 2073 – São Paulo – SP

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